Veredito de Estou pensando em acabar com tudo

06/09/2020 - POSTADO POR EM Filmes

Quantas vezes você já terminou de ver um filme e pensou: “Não entendi várias coisas, mas gostei”? Nas obras de Charlie Kaufman, é quase garantido que isso aconteça. O ousado roteirista se tornou conhecido por suas narrativas no mínimo peculiares, em longas como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), Quero ser John Malkovich (1999) e Anomalisa (2015) – que ele próprio dirigiu. 

Mais uma vez por trás do roteiro e da direção, Kaufman lança pela Netflix uma adaptação do aclamado livro de Ian Reid, entregando novamente uma história em que a experiência do espectador fala mais alto do que o sentido que ele tira do longa. Confira o que achamos de Estou pensando em acabar com tudo.

“Já sei como isso vai acabar”

Conhecer os pais do(a) novo(a) companheiro(a) é sempre um momento de tensão pelas expectativas dos dois lados. A ansiedade, porém, não é a mesma quando sabemos que aquele relacionamento não vai durar muito. É o que a personagem interpretada por Jessie Buckley sente no carro à caminho do jantar com os pais de Jake (Jesse Plemons). Lucy/Lucia/Louise… São vários nomes dados à protagonista, sem nunca descobrirmos o verdadeiro. 

A interação com a Mãe (Toni Collette) e o Pai (David Thewlis) de Jake é pura vergonha alheia. O constrangimento logo vira confusão na isolada casa durante uma forte nevasca. O tempo passa de forma não natural e o futuro se mistura ao passado no início da habitual esquizofrenia de Kaufman. A surpresa da protagonista é tão grande quanto a nossa como espectador, mas, assim como ela, devemos deixar o fluxo continuar para sair do que logo se torna um pesadelo.

Imagem: Divulgação

Acho que estava pensando sobre o tempo”

Não existe isso de “perder tempo“. Aquele período temporal sempre existiu. A diferença é a maneira como o aproveitamos. Pode-se dizer que Kaufman por vezes “perde tempo” com longos e profundos diálogos que não levam a lugar nenhum. Mas não dá para afirmar que o diretor se deixa levar por isso.

Em Estou pensando em acabar com tudo, o cineasta atinge um novo nível de experimentação do espaço-tempo – já testado em Sinedoque, Nova York (2008) e em Brilho Eterno – de forma não linear. A fotografia simétrica é alavancada através da proporção de tela reduzida e dos movimentos lentos e estáveis da câmera, indo contra o crescente descompasso nas cenas da casa e do colégio, onde a subjetividade quanto à realidade é mais explorada.

Imagem: Divulgação

Jake é um cara legal”

O antipático namorado é a figura mais questionada no filme. Seu obscuro passado se mistura com a da protagonista até chegar um ponto em que não sabemos se aquele tempo – ou mesmo a pessoa – é real. 

As conversas entre Jake e sua companheira no carro vão numa crescente de estresse ao discutir desde biologia à antigos clássicos do cinema norte-americano. Buckley e Plemons formam o casal perfeito para a história: sem química, interpretam bem o desconforto e suprimem a raiva de seus personagens para explodir no ápice próximo à conclusão.

Imagem: Divulgação

Veredito

Kaufman prova do drama ao horror, do cinema mudo ao musical, nos levando em uma experiência claustrofóbica dentro de uma relação familiar e “amorosa” cheia de problemas, como todas são. Procurar sentido em certas cenas em sua filmografia não é obrigação. Associar os pontos soltos no começo ao fim é divertido e gera debates interessantes, mas se prender a isso é pouco.

Apesar do transtorno causado em entender situações específicas, Estou pensando em acabar com tudo entrega uma fuga à realidade ao mesmo tempo que mergulha no próprio inconsciente de seus protagonistas de um modo que só Kaufman poderia executar. 

Pontos negativos 

  • Narrativa bagunçada pode desagradar

Pontos positivos

  • Fotografia que auxilia no senso de prisão pessoal
  • Diálogos complexos e sempre conectados com outro ponto passado/futuro

NOTA: 8,5