Entrevista: Karine Teles revela as dificuldades de ser atriz no Brasil

05/10/2020 - POSTADO POR EM Conteúdo

Karine Teles é um dos principais nomes do cinema brasileiro nos últimos anos. Sua estreia nas telonas foi em Madame Satã (2002), de Karim Ainouz. A projeção nacional enfim chegou com Riscado (2010), de Gustavo Pizzi, seu ex-marido e com quem assinou o roteiro do longa. A ascensão da atriz continuou nos sucessos recentes de Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, Benzinho (2017), também de Pizzi, e Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

A carioca de 42 anos contou sobre sua trajetória como artista e comentou sobre os longas em que atuou em uma entrevista coletiva organizada pelo Telecine na última sexta (2). O Roteiro Nerd esteve presente e trazemos aqui os destaques do momento.

Perrengues como atriz

O estrelato a nível nacional não chega em um ou dois anos, como alguns podem imaginar. Para Karine, a carreira se iniciou no teatro, passou para a TV, chegou ao cinema e demorou mais de uma década para enfim chamar atenção dos holofotes no cenário artístico brasileiro.

“Fui professora de inglês, vendi salgadinho na faculdade, fui host em boate. Não conseguia dinheiro como atriz. Tava um pouco cansada. Tinha mais de 10 anos de carreira e achava que insistia em algo que nunca ia dar certo, que não tinha talento. Pensava em desistir. E resolvi escrever um filme sobre isso, a partir do Riscado. Quase todos os atores que conheço tem uma história parecida. E incrivelmente foi o filme que iniciou minha carreira no cinema. Ano passado [2019] foi o 1º em que fiquei contratada o ano inteiro e não precisei arrumar dinheiro com outra coisa“, revelou Karine durante a conversa.

Participação marcante em Bacurau

Bacurau (2019) é referência de um cinema nordestino insurgente e ainda é lembrado por suas cenas surpreendentes e pelo discurso político forte. Algumas das principais cenas são protagonizadas por Karine, que interpreta uma sulista forasteira no vilarejo e que desencadeia a ascensão dramática do longa. Segundo ela, quando o diretor Kléber Mendonça Filho a contatou para avisar que poderia ter um papel para a atriz, a reação foi de euforia imediata.

“‘Eu faço a placa do filme se você quiser’, falei. Quando o Kleber me mandou mensagem, já sabia que seria um sucesso. O ambiente do set era ótimo. Por mais que tenha gente que não goste, o filme é um marco na história do cinema brasileiro, um marco político. Muita alegria de ter feito parte”, contou a carioca.

Caminhando entre extremos

Karine conseguiu mostrar em tela os dois extremos do brasileiro de forma incrível. Por um lado, a patroa mesquinha e que se acha superior em Que horas ela volta e também na figura da sulista em Bacurau, e por outro, a mãe de 4 filhos em busca de emprego, com problemas na família e passando perrengue, mas que ainda tenta ajudar todo mundo em Benzinho – que ela também escreveu ao lado de Pizzi.

O processo de trânsito entre os dois opostos na figura do brasileiro foi um desafio pessoal para a atriz, principalmente nos papéis em que interpreta o lado mais elitista. “No filme do Kleber e no da Ana, o meu corpo serviu para ser o lado opressor, em que tive que ralar muito pra fazer. O trabalho todo era fazer sem criticar. Eu tinha que descobrir em mim aquela escrota da Bárbara. Qualquer história que te comove, vale a pena fazer”, explica Karine.

Imagem: Divulgação

Aprendendo a se comunicar

Para Karine, os longas que estrelou nos últimos anos refletem bem a postura do brasileiro e servem como instrumento de autorreflexão acerca de nossas ações coletivas. “Temos que entender o tamanho da desigualdade social no Brasil. Vivemos em um país sem Ministério da Cultura. Não adianta nada ter um discurso intelectual com os amigos. A gente precisa aprender a se comunicar. Não adianta de nada ter esse discurso e chegar numa posição de poder e ser machista, por exemplo”, defende.

Ao fim da entrevista, a carioca revelou mais um detalhe sobre outra paixão sua: o universo geek. Nerd desde criança, ela narrou um episódio de quando se fantasiou de uma personagem de Star Wars. “Sou muito nerd. Primeira vez que sofri bullying na escola foi por me fantasiar de princesa Leia. Escutei muita merda por causa das tranças e tal”, finalizou a artista.

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