Entrevista: Bacurau segundo os diretores

03/09/2019 - POSTADO POR and EM Filmes

É provável que a essa altura você já tenha assistido Bacurau, o filme brasileiro que tem dado o que falar desde que foi ovacionado e premiado no festival de Cannes. Nossa equipe esteve presente na pré-estreia do longa realizada em Fortaleza com a presença dos diretores e membros do elenco, como Silvero Pereira. Na ocasião, tivemos a oportunidade de conversar com os realizadores sobre a produção e você confere a nossa entrevista exclusiva aqui. Se liga!

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Roteiro Nerd: Em entrevistas anteriores, vocês tem dito que o filme não foi feito de forma a passar uma mensagem específica. Entretanto muita gente tem analisado o filme em relação aos temas de resistência e de luta contra a opressão. Mesmo sem que não houvesse uma intenção original, vocês consideram válidas esse tipo de interpretação?

Juliano Dornelles: Acho que todo filme, toda obra de produção artística, tem mensagens. Mas não cabe ao artista dizer que mensagens são essas. A obra se completa quando tem a pessoa que vai no museu, que vai na galeria, no teatro. O ciclo se fecha nesse momento: quando a obra entra em contato com público. Dito isso, não acredito em obras com significados fechados. Não acho que isso seja bom como forma de arte. Acho que a arte precisa ampliar, precisa provocar reações, interpretações. É claramente uma maneira de fazer pensar. Não necessariamente precisa fazer arte engajada, com bandeiras políticas.

Kleber Mendonça Filho: Eu acho que toda obra artística no cinema, na literatura, as melhores elas sugerem coisas e mostram coisas, e aí você, trazendo a sua bagagem como pessoa vai entender e interpretar ou decodificar aquilo. Mas eu fico sempre incomodado com a pergunta que me fazem desde quando eu fazia curtas, que é “qual é a mensagem do seu filme?”. Aí assim, eu não sou carteiro. Eu não sou o primeiro cineasta a falar isso, vários pensam assim.

Bacurau é um filme que mostra uma comunidade em detalhes, e como o sistema que eles desenvolveram pra existir funciona, e aí tem várias atitudes que eles tomam a partir de determinado momento que acabam dividindo o público em dois times ao final do filme. E os dois adoram o filme. Um é que “yeah, vamo pegar em armas” e o outro é tipo “que triste”. Então cabe a você escolher que tipo de reação você vai ter.

Foto: Divulgação

RN: Um ponto interessante no filme é a religião. Existe uma visão de que para as pessoas do interior a fé é um aspecto muito importante e o filme meio que subverte isso porque nele a igreja está fechada, virou meio que um depósito.

KMF: Mas, num momento chave, um senhor diz: “estava pensando em reabrir a igreja”. (Risos)

RN: Exatamente. Na sua concepção, a religião terá um papel no futuro do Brasil?

KMF: Eu acredito que, na realidade, sim. Porque a religião termina sendo um suporte, até psicológico, para dificuldades, vidas difíceis. Há uma tendência também para quanto mais informação você tem, quando mais leitura você tem – mas não necessariamente, isso não é uma coisa confirmada – talvez você tenha menos religião, menos crença. Bacurau é uma pequena comunidade que tem uma base interessante de educação, de cultura. É um pouco por aí. Mas a religião tá lá. (Spoilers:) Quando a Nelinha tá no carro e o Cláudio decide ir embora no meio da noite porque a situação tá muito ruim, ela tá fazendo uma oração, está rezando uma reza católica. (Fim de spoilers). Todos nós somos religiosos de certa forma, nós somos brasileiros. Eu cresci em escola católica, e não me considero religioso, mas aquilo tudo foi instalado em mim. Na semana santa, por exemplo, eu sinto alguma coisa, embora não me considere religioso. É cultural. É como você passar um ano no exterior e começar a sentir uma saudade muito grande de comer um almoço muito brasileiro, porque aquilo foi “instalado” em você. Eu acho que a religião, pra mim, é um pouco assim – a católica, pois não tenho experiência e vivência em outra religião.

Foto: Divulgação

RN: Muito tem-se dito sobre como Bacurau é um filme incomum pro nosso panorama, pela mistura de gêneros que ele traz com elementos que não são muito explorados pelo cinema brasileiro. Houveram referências, diretas ou indiretas, na hora de construir um filme tão singular?

KMF: Todos nós somos o que comemos. Ao longo da vida, você vai acumulando arte. Filmes, livros, programas de televisão, poemas, lugares que você visitou e tal. E, no cinema, minha dieta… eu fui criança nos anos 70 e adolescente nos anos 80 – e você vinha para o São Luiz naquela época ver Cronenberg e Carpenter. Normal, não era filme de arte, não era cinemateca; era tipo, aquilo só. Eu vi aqui, no São Luiz de Fortaleza, “Fuga de Los Angeles”, do Carpenter. Eu lembro da sessão, de como a tela era curva. Eu lembro do cheiro da Praça do Ferreira. Então, quando a gente foi fazer “Bacurau”, [esses] filmes fizeram parte [disso].

JD: Não vejo como escapar das vivências na forma de pensar cinema quando você faz um filme. Uma parte se deve aos filmes que você viu e ficaram na sua vida. O nosso filme, feito à 4 mãos, por mim e por Kleber, partiu de uma vontade que sentíamos de fazer um filme de gênero. Isso lá em 2009. Mas que falasse do Brasil. Então trabalhamos com muita honestidade. Se vamos falar de um povoado afastado, como o de Bacurau, a gente vai fazer um trabalho mais de aprendizado, de pesquisa profunda. Vai olhar mais do que impor nossa visão, nesse sentido. Para fazer “Bacurau”, precisamos acessar o olhar do outro, porque falávamos muito do coletivo.  É um povoado que se junta, que coopera e que juntos se defendem contra uma ameaça. É diferente do que fazer um filme dentro do seu subjetivo, das suas vivências pessoais. O cinema de gênero dá esse contraste, vai de encontro à essa coisa brasileira, do Nordeste, histórica retratada em “Bacurau”. É um formato, um desenho de um tipo de cinema mais popular, mais comercial. Hoje vemos muito filme feito apressado, as coisas já acontecem nos primeiros 30 segundos. “Bacurau” é diferente.

KMF: Você, às vezes consciente, às vezes inconscientemente, evoca Carpenter, Roberto Santos, Nelson Pereira dos Santos, Spielberg. O look dos filmes [também], a gente teve sorte de filmar com lentes Panavison, e quando você pega na lente e vê no monitor a distorção e tal, mais coisa vem [em mente], porque você sabe que a imagem tá certa e é o que você queria fazer. É algo realmente diferente, são lentes dos anos 70, têm quase 50 anos. A gente recebeu o “currículo” das lentes, com o número de série e os filmes que já fizeram com elas. Tudo isso veio muito naturalmente. A gente pensa em Michael Cimino, Clint Eastwood, Sérgio Corbucci, lá do lado italiano, Sérgio Leone… Tudo isso faz parte do filme. Mas é muito difícil fatiá-lo em seções e dizer “aqui é isso”. É um filme muito brasileiro, pernambucano, nordestino.

JD: Sempre miramos nos filmes que a gente gosta de cinema de gênero dos anos 70, feitos com mais calma. Tivemos a sorte de cineastas que marcaram muito. Todos os meus heróis começaram a fazer cinema dos anos 70. David Cronenberg, Paul Verhoeven, Brian de Palma, Martin Scorsese… Soma isso os faroestes feitos na Itália, que tinham uma visão política forte, uma visão crítica, inclusive. Sergio Leone, Sergio Corbucci, entre outros. O cinema australiano também. George Miller acho que é o principal nome que tá sempre voltando. Conversamos bastante (Kleber e eu) sobre a forma dele filmar. Mad Max e suas sequências, principalmente o Mad Max 2, que é o melhor filme dele, e o melhor dessa série deles.

RN: Melhor do que o “Estrada da Fúria”?
JD: Cara, eu acho! (risos). Mas o Estrada da Fúria é um filmaço.

Foto: Guilherme Conrado e Henrique Villela