Dark: O final é só o começo

19/12/2017 - POSTADO POR EM Séries
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Você quer quebrar seu cérebro de tanto pensar em teorias e desvendar enigmas?  Em “Dark” (2017), série original da Netflix, isso é mais que possível. A obra chama a atenção pela sua proposta obscura e misteriosa, em uma combinação muito bem executada entre os gêneros sci-fi e suspense, trazendo conceitos e referências de outras obras, mas mantendo sua originalidade e inovação.

A história

A produção gira em torno dos moradores de uma cidadezinha alemã reagindo ao desaparecimento misterioso de dois jovens que viviam lá. Desaparecimentos esses que se assemelham a acontecimentos do passado e trazem à tona as memórias e segredos que circundam aquele lugar.

Acompanhamos, então, os personagens em suas jornadas particulares em busca de respostas sobre os acontecimentos recentes e passados, além de uma busca por alívio e consolo para algumas de suas perdas.

Os personagens

Inicialmente, conhecemos superficialmente os moradores e seus papéis naquela cidade, mas, com o decorrer da narrativa, nos aprofundamos em suas angústias e segredos, o que acaba por nos revelar personagens cheios de camadas e importância. Ninguém está lá por acaso, e tudo parece se conectar dentro da história.

Além de fortes atuações, os dramas e problemas enfrentados pelos protagonistas nos levam a uma jornada que vai além do suspense e da investigação, trazendo discussões sobre o comportamento humano e a dor e os sentimentos que todos carregam dentro de si. São indivíduos que, apesar de fictícios, são bastante humanos, o que facilita uma compreensão de suas atitudes e de suas motivações, além de criar o clima dramático por trás da história central.]

Foto: Divulgação

O tempo  (spoiler)

O tempo na narrativa de “Dark” é o ponto crucial. Vemos uma representação perfeita do paradoxo temporal, que, resumidamente, nos remete ao fatalismo de nossas ações. Tudo que fazemos no passado, presente e futuro está interligado. Nossas ações são o resultado delas mesmas em um conceito que transcende o agora.

Como vamos descobrindo durante a narrativa, as viagens no tempo feitas pelos protagonistas durante os anos (2019, 1986 e 1953) já são o resultado delas mesmas no presente. Todas as ações que eles praticarem tanto no passado, como no presente, fazem parte de um ciclo que não muda. Elas são o que tem que ser para que sejam.

Complicado, né? Mas, contextualizando, vemos esse mesmo tipo de viagem no tempo ser trabalhada em obras como “12 Macacos” (1995) e “O Predestinado” (2014). Nas duas tramas, como na de “Dark”, há apenas uma linha do tempo. O que é diferente, por exemplo, do conceito de várias linhas temporais diversas, onde há infinitas realidades alternativas. Nesse tipo de viagem abordado pela série, o indivíduo volta no tempo para a mesma linha onde ele existe, assim, suas ações têm interferência direta em seu presente e em sua própria existência naquele momento, ou seja, ele já vive o resultado da sua viagem no tempo, o que gera um paradoxo temporal.

Como vemos na série, todas as ações de Jonas, por mais que ele pense estar tomando-as livremente, são predestinadas. A própria tentativa dele de destruir a “máquina do tempo” é, na verdade, exatamente o que a cria e, como o agente temporal de “O Predestinado”, ele não tem livre-arbítrio para tomar suas decisões, estas tendem sempre a serem as mesmas e acabarem no mesmo resultado.

É nesse ponto que eu, particularmente, acredito que a série embarque na sua questão primordial, e também mais sombria. O que nos é colocado é o questionamento a respeito do efeito de nossas ações e do nosso livre arbítrio. Ele nos coloca em uma reflexão, junto aos personagens, de como podemos – ou tentamos  – mudar nossa história, quando tudo parece já estar predestinado. Afinal, o fatalismo, para o homem, é assustador.

Foto: Divulgação

Veredito

Finalmente, “Dark” é uma obra sombria e muito bem produzida, com uma história bem desenvolvida e com pontas bem amarradas. Ela consuma sua proposta e inova em sua abordagem, trazendo dramas reais e angustiantes, além de desenvolver um mistério instigante e arrebatador. Uma série que traz um visual e narrativa mais sóbrios, bem europeia, mas com toda sua originalidade. Com apenas dez episódios, nos deixa na expectativa por mais. Relevante e de qualidade assombrosa, é um deleite para os olhos e para a mente.

Inclusive, a produção nos recorda uma mistura – que acho maravilhosa (#Aline) – de dois gêneros que já se encontraram anteriormente, o suspense e a ficção científica. Como em “Twin Peaks” (1990) de David Lynch, somos apresentados a acontecimentos que exploram o mistério em um clima sobrenatural, expandindo as possibilidades e acrescentando um “algo a mais” às tramas regulares de investigação policial. Não é mais tão fácil prever o vilão – se é que o mesmo existe-, nem mesmo somos capazes de prever o que vem logo a seguir.

Foto: Divulgação


  • Juliana Ferreira

    texto muito bom!