Caio Fernando Abreu – Uma homenagem

17/05/2020 - POSTADO POR EM HQs/Livros

Gay, escritor, subversivo, portador do vírus da AIDS, brasileiro. Caio Fernando Abreu foi um grande contribuinte da literatura nacional. No Dia do Combate à Homofobia, lembramos deste grande artista que tanto influenciou e ainda influencia gerações. 

Quem

Nasceu em Santiago, no Rio Grande do Sul, em 1948. Se estivesse vivo, teria hoje 72 anos, mas faleceu em 1996. Sua obra abordou temáticas LGBTQIA+ em um tempo sombrio para os envolvidos. Suas palavras são, hoje, mais atuais do que jamais foram. Escreveu livros, contos, crônicas e peças de teatro. Durante a ditadura militar, foi perseguido pelo governo brasileiro e refugiou-se na Europa. Dessa experiência nasceram muitas histórias de sobrevivência, amor, sofrimento e vida. 

Ganhou três vezes o Prêmio Jabuti de Literatura, o mais tradicional prêmio literário do Brasil. Primeiro em 1984, com o livro “O Triângulo das Águas”, depois em 1989 com “Os Dragões não Conhecem o Paraíso” e novamente em 1996, com o livro “Ovelhas Negras”. Era amigo de personalidades como Lygia Fagundes Telles, Hilda Hist e Cazuza, com quem teve um romance. Foi no sítio de Hilda que Caio se escondeu da ditadura, antes de ir embora para a Europa. 

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez’.” – Trecho da crônica “Vai passar”. 

Foto: Divulgação

Como

Sempre à flor da pele, Caio escreveu sobre ser perseguido na ditadura, sobre amar homens e como isso afetava seu relacionamento com o mundo. Sua literatura nos mostra as feridas e cicatrizes de uma época que muitos de nós não vivemos, mas tememos sempre. 

Em seu conto “Aqueles Dois”, que também foi adaptado para o cinema pelo cearense Emerson Maranhão, é possível entender como a sociedade dos anos 80 lidava com gays assumidos – spoiler: não era nada legal. Sua presença forte em um Brasil “doente” marcou para sempre muitos corações. Sempre presente em jornais como Folha e O Estado de São Paulo, além da revista Veja, ele fez parte das pessoas que diziam “Ei, nós existimos!”. 

Sua obra é vasta, e em maior parte formada por contos. Indicamos os livros “O Ovo Apunhalado”, em que é possível ver um Caio que fala sobre esoterismo e fuga da realidade, “Morangos Mofados”, sua obra mais famosa, e “Ovelhas Negras”. 

Apesar de falar sobre as dificuldades de ser LGBTQIA+, Caio abordou muito a existência do amor e a felicidade que ele pode trazer. Seu livro “Onde Andará Dulce Veiga” foi adaptado para o cinema em 2008. A história busca uma cantora esquecida por muitos, interpretada por Maitê Proença. 

“Escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta.” – Trecho do livro “Morangos Mofados”.

Foto: Divulgação

Nota da repórter

Caio Fernando Abreu é meu autor favorito. Grande parte do imaginário que tenho de Brasil foi construída pela leitura de seus livros. De uma maneira agressiva, e às vezes, meiga, ele me fez entender como aconteceu a luta pela vida e direitos LGBTQIA+ por aqui. Recomendo a leitura de toda a sua obra neste dia, e sempre. Obrigada pelo espaço! 

Livro favorito de Caio Fernando de Abreu, “Morangos Mofados”