Blade Runner 2049: A definição da humanidade

04/10/2017 - POSTADO POR EM Filmes
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Nesta quinta-feira, 5 de outubro, estreia “Blade Runner 2049”, dirigido por Denis Villeneuve (“A Chegada”). Fomos conferir e deixamos aqui a nossa reflexão sobre este filme maravilhoso e todas as questões que ele aborda. A produção se passa na Califórnia de 2049, onde uma nova linha de replicantes – androides idênticos aos seres humanos destinados ao trabalho escravo – é desenvolvida pelo empresário Niander Wallace (Jared Leto). Enquanto isso, acompanhamos K (Ryan Gosling), um blade runner que busca replicantes foragidos para eliminá-los. Em uma dessas buscas, ele conhece Sapper Morton (Dave Bautista) e descobre um segredo que pode mudar toda a ordem como conhecem. Essa descoberta o leva a uma missão para encontrar Rick Deckard (Harrison Ford), um caçador de andróides aposentado e desaparecido há trinta anos.

Lembrando que o texto está cheio de spoilers.

O que faz você ser humano?

Desde sempre, o universo Blade Runner joga uma questão que inclusive me fez pensar sobre por tanto tempo que eu (#Jessica) já perdi a noção do que é real. E aí, o que configura a humanidade dentro da gente? A ideia de ter uma alma? Temos a capacidade de fabricar seres artificiais à nossa imagem e submissos às nossas vontades?

Em 2049, questões como mortalidade foram postas de lado já que o criador de replicantes Niander Wallace constrói modelos que ultrapassam a vida útil de modelos anteriores, mas novas questões surgem, tais como a excessividade de sentimentos da parte dos replicantes. A obra na qual Blade Runner foi baseada, “Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick, já no seu título puxa esse questionamento. E se andróides sonham, são com coisas reais? Os sonhos ou sentimentos de um robô são menos reais do que os de um humano a partir do ponto de vista de quem?

K é um blade runner que também é um replicante dessa nova linha de Wallace. Durante a primeira parte do filme você percebe que o trabalho do empresário é bem eficaz, pois ele não contesta nada do que seus superiores o mandam fazer, porém acontece algo que faz com que a partir daí ele abra sua mente para outras possibilidades. E o que foi esse acontecimento? O conceito de que replicantes possam se reproduzir como humanos. Antes considerados seres sem alma, a possibilidade de um andróide poder carregar um bebê no ventre é como um milagre para K, que entra em crise ao momento em que sua superior comanda que ele ache esta criança e a mate. Então temos uma grande saga de autoconhecimento de K durante esta questão, que é algo mais humanizado – quando questionado sobre se havia algum problema em fazer este trabalho, ele apenas diz “eu nunca matei antes algo que nasceu”.

É ou não é?

Provavelmente a maior discussão entre os fãs de “Blade Runner” (1982) é a pergunta que não quer calar: Afinal, Deckard é ou não um replicante? Várias vezes foram deixadas pistas que poderiam ser interpretadas como um sim, e a mais marcante de todas é quando, na cena final, Deckard e Rachael (Sean Young) decidem fugir. Então, na porta de casa, ele encontra um origami de unicórnio deixado por Gaff (Edward James Olmos), dando a entender que Gaff sabia sobre os sonhos de Deckard e assim, dando o recado de que ele é um replicante já que eles possuem memórias e sonhos implantados.

Porém, é isso. Nunca deu pra saber de verdade se ele é ou não, até mesmo com Ridley Scott confirmando e Harrison Ford logo depois negando. A discrepância entre os dois até é justificada por alguns como “Deckard supostamente não pensa que ele é um replicante, então não seria inesperado que o diretor decidisse que ele não deveria saber”.

Se você esperava que 2049 resolvesse a questão, espere sentadinho que as novas informações não necessariamente solucionam alguma coisa – apesar de ser tendencioso que ele realmente só seja um ser humano mesmo e passamos alguns anos sonhando alto. Só que, em certo momento do filme, presenciamos uma conversa entre Deckard e Wallace, onde o vilão diz coisas que dão a entender que o encontro dele com Rachael não foi mera coincidência, e sim arquitetado para que as consequências dessa relação existissem.

Foto: Divulgação 

Moralidade do crime

A existência do crime no cinema noir – grande influência na franquia Blade Runner – não é algo revolucionário. O que muda é como busca-se trabalhar com o assunto de uma forma mais subjetiva para que o espectador tenha um pouco de conflito. Bandidos com os quais você costuma se identificar ou até torcer, contra oficiais da lei com a corrupção enraizada e dando um tratamento degradante aos que consideram inferiores a eles fazem com que a linha da nossa moralidade fique um pouco borrada.

Os conflitos e dores dos replicantes são fáceis de associar com os nossos. Toda essa vontade de viver e de ser dono de si é algo que todos nós queremos, então criamos empatia. Mas se eles são os vilões, qual a função dos “bonzinhos”? Supostamente não temos que torcer por eles? Isso complica quando essa ideia de mostrar a verdadeira natureza das pessoas entra em vigor, pois você vê tudo: o lado bom de gente ruim e o lado ruim de gente boa.

O lado da lei desde o começo possui atitudes duvidosas, referindo-se aos andróides de uma maneira ofensiva – chamando-os de “pele-feita”, um termo rebaixador – e o tempo todo obrigando o protagonista a fazer o seu trabalho, colocando-o na parede com a ideia de que ele não tem escolha.

Então somos finalmente apresentados a um protagonista que, desde o momento inicial, é estabelecido como um replicante, um muito obediente aos humanos. E quando ele se vê com a necessidade de defender ou não um da sua própria espécie, o dilema moral volta. Acompanhar o trajeto de K o tempo todo em cima dessa fina linha faz com que a gente reflita sobre o que é o bom afinal.

Foto: Divulgação

2049

Algo que eu (#Jessica) gostei muito assistindo o filme de 1982 era como toda a parte de som funciona muito bem. E no longa atual foi melhor ainda, mais um trabalho maravilhoso de Hans Zimmer – que preferiu mergulhar fundo na trilha original composta por Vangelis e só deu bom. O clímax combinado com a trilha e efeitos sonoros dá uma sensação de imersão na cena, criando tensão rapidamente.

O roteiro é incrível e é muito lindo como tudo nessa produção se encaixa. Recomendo assistir os curtas feitos antes do lançamento, que ajudam muito a contextualizar – Blackout 20222036: Nexus Dawn, e 2048: Nowhere to Run. Mesmo o marketing tendo vendido Harrison Ford como um protagonista ao lado de Ryan Gosling, ele demora bastante pra aparecer, e talvez não tenha tanta ação da parte dele como os fãs provavelmente esperavam.

Meu (#Jessica) único problema real com essa obra tem nome e se chama Jared Leto. Pelo menos ele passou pouquíssimo tempo em cena – e ainda assim, mais do que em “Esquadrão Suicida” (2016). Acho que se demorou mais tempo foi só pela mania do homem de falar frase minúscula em um espaço de tempo eterno. No final, o personagem dele teve quase nenhuma relevância no roteiro, servindo apenas para ser um plano de fundo para os modelos novos de andróides e fim.

Apesar desses detalhes, “Blade Runner 2049” é o que ele prometeu ser: um passo gigante para o gênero de ficção científica, e vale cada minuto de tela.

Foto: Divulgação