Bird Box: O medo do desconhecido

24/12/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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Esta semana a Netflix finalmente lançou o “Bird Box”, adaptação do livro de 2014 do norte americano Josh Malerman, que no Brasil ficou conhecido como “Caixa de Pássaros” (Intrínseca). Estrelado e produzido por Sandra Bullock, o longa não estreou nos cinemas, provavelmente apostando no serviço de streaming para garantir maior adesão do público.

Como bons admiradores de clássicos mas também modernos contos do vasto gênero de terror, já assistimos à obra e trazemos agora um breve veredito e comparação entre produção cinematográfica e livro, lembrando que já havíamos feito uma análise deste último, que pode ser retomada aqui.

*Veja também “Filmes de terror para mexer com seus sentidos”

Feche bem os olhos

Para compreender melhor a história de “Caixa de Pássaros”, é necessário escutar mais do que observar. Na mesma trajetória de investidas como “Um lugar silencioso” (2018), a trama retrata um universo distópico-apocalíptico, onde criaturas desconhecidas habitam o planeta e começam a trazer o caos à Terra para quem consegue enxergá-las. Talvez a sequência mais diferente do filme em comparação à literatura seja essa do início, mas na essência é basicamente a mesma premissa.

Malorie (Bullock) está grávida e precisa acompanhar seus exames com o incentivo da irmã, Jessica (Sarah Paulson). Sem um pai presente, a mulher mantém um distanciamento da maternidade e da própria realidade quando vê que as notícias no jornal não estão assim tão distantes do seu bairro: as pessoas estão ficando loucas, levando-se ao extremo do auto-extermínio com a visão de sabe-se lá o quê. Toda a cena inicial que mostra como Malorie é levada a procurar abrigo na casa mais próxima é de tirar o fôlego.

Fidelidade relativa

De modo geral, o longa metragem é bastante fiel à escrita de Malerman. Até mesmo a estrutura de montagem é parecida. Alternando entre a adaptação ao novo mundo e à convivência de Malorie com os colegas de refúgio e a saída da casa, anos depois, em busca de nova esperança de sobrevivência, o enredo deixa leitores e espectadores bem tensos praticamente todo o tempo. Talvez para aqueles que já leram o livro não haja tanta novidade, e a escolha do roteirista Eric Heisserer, o mesmo de “A Chegada” (2016), foi de manter o mesmo suspense sobre a origem das tais monstruosidades que fazem as pessoas se matarem.

Naturalmente, àquele público que não conhecia a prosa pela leitura será garantida uma experiência muito mais rica. E detalhes como a própria ambientação muito ensolarada e a maquiagem no rosto de Sandra Bullock que se sustenta até o fim da narrativa podem chegar a ser um pouco distrativos, quase inverossímeis.

A participação de atrizes excepcionais, como Sarah Paulson, asseguram forte envolvimento com as situações desastrosas. Foto: Divulgação

Sobreviver é fundamental

Alguns pontos da ordem dos fatos também acabam sendo pouco explorados, como a introdução do personagem Gary (Tom Hollander), que nas páginas fica um tanto quanto mais interessante quanto na tela. Fica uma impressão de que grandes atores, como John Malkovich e Jacki Weaver, foram mal aproveitados com o tempo de entrega que tiveram.

Sandra Bullock continua brilhante como sempre, porém, e é acertada a escolha de uma mulher mais velha para interpretar a jovem recém-formada de vinte e poucos anos, como conhecemos no livro. Bullock, afinal, já está na casa de seus cinquenta anos. A atriz revelou, no painel da CCXP em São Paulo, que “Bird Box” faz uma bela homenagem às mães, que muitas vezes são retratadas no cinema com grande reverência e romantismo, mas que na vida real estão frequentemente com medo, irritadas e precisam sim fazer sacrifícios consigo mesmas para garantir o bem estar dos filhos. E se preciso for, eles vão sofrer também.

Sandra Bullock interage boa parte do filme com os atores mirins Vivien Lyra Blair e Julian Edwards e prova que também é uma mãe durona na vida fictícia. Foto: Divulgação

Veredito

Para muito além de uma simples novela de terror, “Bird Box” traz uma reflexão sobre a psicologia do medo e o que o próprio sentimento de impotência faz com as pessoas, revelando fragilidades diversas e instintos quase tão sobrenaturais quanto a presença dessas entidades “alienígenas”.

Se o ritmo eletrizante e a constante aflição deixados pelo filme permitirem que mal pisque os olhos, preste atenção em momentos-chave do entrecho, como aquele em que Malorie se vê sozinha na floresta ou quando o trio de sobreviventes escuta a voz de um homem durante a travessia do rio que desafia as personagens. Essas passagens têm muito a dizer sobre nós mesmos, sobre o desconhecido e sobre a consciência coletiva do pesadelo.

O significado da presença dos pássaros pode trazer à tona discussões profundas e render assuntos dos mais diversos. Foto: Divulgação