Bacurau: o retrato da resistência nordestina

29/08/2019 - POSTADO POR EM Filmes

Fazendo a sua estreia oficial nos cinemas brasileiros nesta quinta (29), “Bacurau” é uma produção nacional que já chegou com uma aclamação vinda do exterior. A lista de premiações é longa: ele faturou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, ganhou o posto de Melhor Filme na principal mostra do Festival de Cinema de Munique, na Alemanha, e ainda conquistou outros três prêmios no 23º Festival de Cine de Lima, no Peru: Melhor Filme, Melhor Direção e Prêmio da Crítica Internacional. Chegou a hora de você descobrir com a gente o motivo de tanto furor sobre a produção.

Pernambuco futurista

O filme se passa na fictícia Bacurau, uma cidade do interior de Pernambuco, em um futuro próximo. Os avanço dos anos não são muitos, mas o suficiente para mostrar como as pessoas são adeptas da tecnologia e como isso é um fator bastante presente em suas vidas. Esse é um dos principais motivos para a estranheza geral quando a região repentinamente some do mapa, deixando todos os habitantes aparentemente isolados do resto do mundo.  

Aliás, estranheza é uma das palavras de lei da ficção. Conforme a trama avança vamos percebendo aos poucos que tem algo de errado acontecendo com aquele lugar. Não se engane pelo primeiro ato simples, dedicado a te inserir na vida pacata da cidade: logo somos surpreendidos por uma reviravolta que torna tudo mais interessante e intrigante. A partir de então, o filme ganha um quê de cinema western, ou faroeste como ficou conhecido aqui.

Foto: Divulgação

Conhecendo a cidade

Com a primeira meia hora de tela já fica claro para o espectador que o protagonista dessa história não é nenhum personagem específico, e sim a própria cidade que leva o nome da produção. No início somos introduzidos a alguns de seus moradores que acabam se destacando por um momento ou outro, como Domingas (Alice Braga), a médica local; Lunga (Silvero Pereira), o chefe de gangue; Teresa (Bárbara Colen), originária do município, mas que estuda fora e Pacote/Acácio (Thomás Aquino), que também já teve seus problemas com a lei. 

Porém as histórias individuais acabam não sendo exploradas em detrimento do grande plot principal que vai ser sobre o problema de isolamento dessa comunidade. Isso acaba se configurando como um ponto negativo do filme, já que não somos apresentados a nenhum desenvolvimento de personagem específico e tudo se resume ao plano geral que envolve a região. É algo compreensível quando se entende o tom que os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles quiseram dar à produção, mas ainda assim não deixa de ser frustrante apresentar tantos enredos separados para não dar um rumo a nenhum.

Foto: Divulgação

Ameaça desconhecida

Além do gênero faroeste, outro que se encaixa muito bem na produção é o de suspense. Desde o princípio percebemos uma aura estranha cercando os acontecimentos da cidade, isso é reforçado pela direção, que nos apresenta planos longos mostrando a paisagem, ou focando no rosto de determinado personagem. A trilha também auxilia a criar esse clima de incerteza, dando o tom para as paisagens áridas e que reforçam a ideia de isolamento.

Não vou explicar aqui a ameaça que chega até Bacurau, é melhor você descobrir sobre si mesmo assistindo o filme e tirando suas próprias conclusões. Mas é durante o terceiro ato que temos a parte mais empolgante da produção. Nele vemos mais acentuados os contornos de western e até mesmo cenas que nos remetem ao gore, um subgênero cinematográfico voltado para representações gráficas de sangue e violência. Nada muito exagerado, mas que não se espera muito ver em longas nacionais.

Foto: Divulgação

Veredito

“Bacurau” consegue ser um ponto fora da curva quando se fala em produções nacionais. Ele traz um ar ousado com uma mistura de cinema “de arte” e “exploitation” que ainda é pouco vista nos filmes nacionais. Ele acerta ao explorar o sertão de uma maneira diferente do que ele normalmente é retratado. Mesmo que a questão da força do nordestino seja um tema até recorrente, não é um elemento que se combina a tramas de suspense, o que consegue ser feito aqui de forma muito natural.

Por conta da ambientação também conseguimos perceber sutis críticas sociais, ainda que um dos diretores tenha dito em entrevista que não tinha nenhuma mensagem em mente ao rodar a produção. Mas quando se fala sobre a vida de uma cidade pequena do interior, retratando o que se passa no dia a dia dessas pessoas e os problemas que elas têm que enfrentar, se torna inevitável não transparecer nenhum tipo de olhar específico ou opinião formada sobre aquele contexto. Então, mesmo que não intencionalmente, o público entende as questões levantadas pelo longa, forma uma reflexão sobre aquilo, e da mesma maneira consegue se envolver por uma trama intrigante, intensa e empolgante.

Pronto negativos:

  • Primeiro ato lento;
  • Apresentação de muitos personagens, mas sem desenvolvimento específico para nenhum deles.

Pontos positivos:

  • Produção bem diferente do estilo nacional comum;
  • Boa mistura de gêneros entre o suspense, o faroeste e o gore;
  • Trama bem resolvida e centrada em si mesma.

Nota: 9,0