Análise: Assassinato No Expresso Do Oriente

28/11/2017 - POSTADO POR EM Filmes E HQs/Livros
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Kenneth Branagh é um artista multifacetado. Ator, diretor e roteirista, seus trabalhos estão muitas vezes ligados ou ao teatro ou à literatura clássica. Em seu novo filme, ele se arrisca em adaptar uma das maiores obras de Agatha Christie, o mistério “Assassinato no Expresso do Oriente”. As nossas impressões você confere aqui.

Início conturbado

No começo da produção, somos apresentados ao detetive Hercule Poirot, interpretado pelo próprio Branagh, diretor da obra. Infelizmente, a introdução se dá de forma desajeitada e apressada. Toda a sequência inicial em Jerusalém está ali apenas para que o detetive mostre ao público suas características peculiares, como sua aversão à imprecisão dos ovos do café da manhã (que possuem tamanhos assimétricos), além de suas habilidades extraordinárias em solucionar crimes. Apesar de ser um recurso narrativo interessante, visto que a investigação central do filme será desafiadora a Poirot, a forma com que o caso introdutório é facilmente resolvido parece vazia e incompatível com a personalidade do detetive.

Convocado para um trabalho em Londres, o renomado Poirot está convencido de que precisa tirar férias, mas ainda sim embarca de última hora no Expresso do Oriente para atender ao chamado. Não há como ficar imune ao grande elenco que vai aos poucos surgindo em tela no momento em que o trem está saindo da plataforma. Branagh conseguiu reunir nomes de peso como Judi Dench, Penelope Cruz, Michelle Pfeiffer, Johnny Depp e a promissora Daisy Ridley. A bordo do trem, ainda temos um breve tempo para conhecer os personagens até que o assassinato mencionado no título aconteça.

Foto: Divulgação

As pistas

Com o trem impedido de seguir viagem devido à neve, Poirot se vê na obrigação de resolver o mistério antes que o veículo volte a se locomover. No livro de 1934, Agatha Christie constrói o processo de investigação do crime a partir de uma série de entrevistas com todos os viajantes do vagão, e o leitor tem a oportunidade de ouvir todos os personagens. Nesta adaptação, a mecânica que favorece o livro é jogada fora em favor de uma rápida montagem inaudível e cenas sem uma progressão específica, com as pistas aparecendo meio que ao acaso.

Algumas mudanças do material original incluem uma fusão de dois personagens em um; uma cena de perseguição criada apenas para o filme; e monsieur Bouc, antes diretor da linha, agora é o jovem sobrinho deste. As mudanças não acrescentam, mas também não atrapalham. Talvez esse seja o problema de quase toda a parte central do filme. O roteiro é desconexo e não acumula em muita coisa. Os pontos altos ficam com o departamento de figurino e com a direção de arte. Os takes que capturam o trem em movimento são bem elaborados, e a reconstituição da época é elegante e acurada.

Foto: Divulgação

Conclusão

Sorte de Branagh que o plot twist da história original é eficiente demais para ser desinteressante – como o resto do filme. Décadas depois, a sagacidade de Agatha ainda confere um brilho especial à produção. A cena em que o caso é desvendado é de longe a melhor da adaptação. É o momento em que as atuações se destacam, e a construção da sequência chama atenção. A direção contida de Branagh não desperta todo o potencial do elenco, que parece desnecessariamente reunido, sem uma razão de ser em uma obra morna.

Ao optar por um desenvolvimento processual, a história sofre a ausência de todas as nuances originais e não tem muito fôlego até cerca de dois terços do longa. É o final que não perde seu poder e confere o sopro de vida que a narrativa deveria apresentar desde o começo. Com uma continuação já sendo discutida pela Fox (desta vez baseada no livro “Morte no Nilo”), é imprescindível que o estúdio pare e encontre uma justificativa boa o suficiente para que a adaptação de fato aconteça. Algo que não parece ter sido feito antes de “Assassinato no Expresso do Oriente”.

Foto: Divulgação