A Vida Invisível: a trajetória de duas irmãs

29/11/2019 - POSTADO POR EM Filmes

Quando “A Vida Invisível”, do diretor Karim Aïnouz, foi o escolhido brasileiro para concorrer a uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, logo se criou uma expectativa em torno do longa. Ele ainda levou o prêmio principal da Mostra “Um Certo Olhar”, no Festival de Cannes de 2019 e o prêmio CineCoPro, do Festival de Cinema de Munique. O filme chegou recentemente ao Brasil e vamos te contar o motivo de tanto hype em torno da produção.

Laços familiares

É importante você entender que esse é um filme sobre mulheres. Ele mostra duas trajetórias distintas e bastante plausíveis de duas irmãs que viveram no Brasil durante a década de 50 e a maneira como elas tiveram que lidar com o tipo de sociedade em que estavam inseridas, sobreviver às suas provações e expectativas e ainda ter tempo para perseguir seus sonhos e objetivos.

O longa acompanha uma família cujos pais são portugueses, mas suas filhas já nascem em território brasileiro. Em meio à sociedade do Rio de Janeiro vemos a tímida Eurídice (Carol Duarte) exercer seu talento como pianista, enquanto busca uma vaga em um renomado internato de música. Já Guida (Julia Stockler), sua irmã mais velha, prefere as alegrias de uma vida social ativa.

Ambas são bastante unidas, porém acabam por seguir caminhos diferentes bem no início da narrativa. Guida decide fugir de casa com o namorado estrangeiro, temendo a desaprovação do pai quanto ao relacionamento. Enquanto Eurídice é jogada para uma vida matrimonial insípida ao lado de Antenor (Gregório Duvivier), ao mesmo tempo em que busca não deixar seu sonho de musicista morrer.

Foto: Divulgação

O papel da mulher

“A Vida Invisível” consegue ser muito incisivo ao mostrar as situações as quais uma mulher ficaria sujeita naquela época (e que ainda pode estar). Vejamos a situação de Guida, que provavelmente é aquela que mais nos comove, ela foi seduzida pelo namorado e abandonada grávida, voltando à a casa dos pais esperando algum consolo, a garota é rechaçada e mandada para a rua, além de ter sido enganada por qual era a verdadeira localização da irmã, que seria uma pessoa que poderia realmente lhe dar apoio. 

Já Eurídice tem a narrativa pautada pela perseguição ao paradeiro da irmã mais velha e de seu sonho de pianista. Ambos são orbitados pelo seu entediante marido, que parece querer usá-la principalmente para satisfazer seus impulsos sexuais. 

Aliás, essa é outra questão do filmes, que é a forma como ele retrata o sexo. Todas as relações sexuais são mostradas como incômodas, desengonçadas e sujas, não há nenhuma inspirada por amor ou romance, elas estão ali apenas para um fim: satisfazer o homem e engravidar a mulher. Assim o diretor transmite de forma crua uma época em que não se falava sobre a sexualidade feminina, e com o discurso que temos hoje, só torna algo ainda mais difícil de se assistir. Algumas cenas conseguem arrancar um riso de nervoso, mas outras só geram repulsa do espectador, de ter que presenciar as protagonistas em cenas tão claramente desconfortáveis. Até mesmo Guida, a nossa personagem que parece ter um pouco mais de consciência em sua busca pelo prazer, não consegue ter sucesso em seus encontros.

Foto: Divulgação

Passagem de tempo 

Outra característica do filme percebida ao longo de seus 139 minutos é que ele não se incomoda em deixar de maneira clara todas as passagens de tempo e os acontecimentos que se deram entre elas. A cronologia não parece muito certa no início, mas eventualmente você vai se habituando e aprendendo a entender as dicas que o roteiro deixa pra que você compreenda a história.

Mesmo assim muitas lacunas ficam em aberto e o longa não vai te oferecer todas as respostas necessárias ao seu espectador, ele espera que você mesmo as preencha e compreenda por si mesmo qual rumo as protagonistas estão tomando. Esse é um artifício que pode se revelar incômodo em alguns momentos, pois a narrativa das duas irmãs é algo de fácil aceitação, então por se importar com o destino delas o público vai querer conhecer todos os detalhes, detalhes esses que vão ficar a cabo de sua imaginação e entendimento próprio durante certas passagens de tempo.

Foto: Divulgação

Veredito

“A Vida Invisível” consegue trazer o emocionante drama de duas irmãs, enquanto traz protagonistas cativas e que demonstram o papel da mulher durante uma sociedade muito mais rígida do que a nossa. O desenrolar de suas vidas discute com propriedade aspectos dessa comunidade carioca, que põe em cheque os seus sonhos e até mesmo o seu desenvolvimento pessoal. 

A narrativa, que mostra sua passagem de tempo muitas vezes através de cartas, traz mistérios nas lacunas ao longo dos saltos temporais, mas consegue deixar o público suficiente investido em seu desenrolar. Os diálogos pausados chegam a ser um incômodo, algo que acontece mais pela nossa ânsia de preencher o silêncio e ter com o que trabalhar. As cenas não possuem nenhum corte especial para demonstrar as passagens de tempo, o que torna a direção mais linear.

O longa chama a atenção principalmente pela sua história emotiva e forma narrativa, que possui uma cronologia pouco definida. Também pela forma como retrata suas protagonistas femininas e retoma essa discussão em uma sociedade anterior, fica o questionamento se esses acontecimentos ficaram tão no passado assim. O que nos resta agora é torcer para que o filme conquiste uma vaga na maior premiação do cinema internacional.

Pontos Positivos

  • História emocionante, com roteiro bem estruturado
  • Protagonistas cativantes
  • Discurso relevante sobre o papel da mulher

Pontos Negativos

  • Diálogos secos e pausados
  • Cronologia não muito clara

Nota: 9,5