A Vastidão da Noite: uma nova sensação sci-fi

10/06/2020 - POSTADO POR EM Filmes

Já olhou para o céu à noite e se perguntou o que os olhos e ouvidos humanos não conseguem observar naquela imensidão? As dúvidas sobre o espaço são pilares de diversas tramas de ficção científica. A escalada para descobrir o universo estava em seus primeiros passos na década de 1950, quando se passa a história de “A Vastidão da Noite”, primeiro trabalho do diretor Andrew Patterson.

O longa recebeu o prêmio de Melhor Narrativa pelo público do festival de cinema independente Slamdance, em 2019. No fim de maio, a Amazon comprou os direitos da produção e a lançou no streaming da Prime Video, atraindo os olhos do público. O veredito você confere aqui!

Sons do Além

Novo México, 1958. A pequena cidade Cayuga está reunida para um jogo de basquete do time local. Enquanto quase todos os habitantes estão atentos à quadra, os jovens Everett (Jake Horowitz) e Fay (Sierra McCormick) cumprem seus trabalhos como DJ de rádio e operadora de telefonia, respectivamente. Tudo normal até então.

Os primeiros 20 minutos são bem apressados e causam certa estranheza. Os rostos dos personagens não entram em foco uma única vez. A câmera, sempre metros distante de suas costas, também não é normal, mas foi a maneira do diretor nos jogar no ambiente de maneira natural.

Porém, o ritmo veloz cai direto para um plano-sequência de 10 minutos com Fay no telefone, quando um som irreconhecível é captado na linha. A agilidade da jovem em apurar informações sobre o que acabou de ouvir e contatar seu amigo da rádio para transmitir o som ao vivo é algo que ajuda a alavancar o ar de mistério do longa.

Logo, começam a chegar ligações assustadas de cidadãos da região. Há algo no céu. Um objeto nunca visto antes naquela pequena cidade. A atenção de Everett e de Fay – e a nossa, como espectadores – é puxada de vez quando outro telefonema confirma: o som desconhecido já foi ouvido antes, durante trabalhos secretos de soldados para o governo americano. E a origem não é deste mundo.

Foto: Divulgação

Há algo no céu

Sabe, quando eu era pequeno, meu pai me contava várias histórias de quando ele ou conhecidos viam coisas estranhas nos céus. Os boatos de antigamente sobre OVNIS e forças não-terrestres rodearam a minha infância. E eu escutava com muita curiosidade todas essas especulações.

“A Vastidão da Noite” nos remete à realidade do início da Guerra Fria, em um local onde qualquer novidade se torna assunto de semanas entre as pessoas. Neste caso, o papel de entender o que está acontecendo cai no colo de dois curiosos adolescentes.

Os processos de apuração e de entrevista acrescentam para a construção da tensão, se baseando sempre na sugestão. Um barulho esquisito na frequência de rádio. Algo no céu, onde a câmera se recusa a apontar. Com exceção de uma cena, não há um take nessa direção. Não temos pista do que pode estar ocorrendo sobre as cabeças dos personagens. E este é o trunfo do filme.

Os cortes velozes entre os ainda mais ligeiros diálogos parecem desconfortáveis no começo, mas logo nos habituamos à maneira enérgica que Everett e Fay trabalham. Para eles, a ficção de seres extraterrestres aos poucos é questionada e o longa assume tons de terror dignos de um episódio de “Além da Imaginação”, uma aparente referência estilística do diretor. O charme de um bom sci-fi, entre outros pontos, está em não entregar tudo. O recurso da sugestão é o motor de uma clássica trama do gênero. E “A Vastidão da Noite” usa isso muito bem.

Foto: Divulgação

Veredito

É importante destacar que “A Vastidão da Noite” não é uma grande produção. Filmada em 2016 durante apenas 17 dias, a ficção científica não ostenta grandes efeitos especiais. A proposta aqui é uma experiência de imersão em uma noite atípica de uma pequena cidade do interior norte-americano. A estreia do diretor mostra grande potencial na construção da ansiedade pela descoberta do que se sabe sobre os sons do céu.

“É algo fascinante, hipnotizante. Não é assustador ou ameaçador. Na verdade, é a coisa que vai te levar à toca do coelho”, disse o diretor Andrew Patterson em entrevista ao The New York Times. As longas sequências através dos fluidos movimentos de câmera nos inserem quase como acompanhantes da aventura dos protagonistas. O ar de emergência e de medo não intimida, pelo contrário, motiva. 

Não por acaso, a estação de rádio em que Everett trabalha se chama ‘WOTW’, uma homenagem à “War Of The Worlds” (Guerra dos Mundos), livro de H. G. Wells em que alienígenas invadem a Terra.

Apesar de previsível, a conclusão de “A Vastidão da Noite” é satisfatória após a escalada da tensão e da curiosidade, muito ajudada pela trilha de cordas simples mas pontual na dramatização e pela atuação segura dos atores principais. Uma história pequena, mas com potencial enorme. Um verdadeiro achado.

Pontos positivos

  • Atmosfera de mistério bem construída
  • Narrativa fluida e engajante apesar de poucos recursos técnicos 

Pontos negativos

  • Ritmo muito acelerado no começo
  • Pouco desenvolvimento dos protagonistas

NOTA: 8