A interatividade de Black Mirror em Bandersnatch

14/01/2019 - POSTADO POR EM Séries
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A Netflix nos ofereceu como presente neste último Natal o seu primeiro filme da popular série “Black Mirror”. E nada melhor para um seriado que fala sobre como o ser humano interage com a tecnologia que nos oferecer a possibilidade de termos uma influência real com a história assistida. Então preparamos um texto para falar sobre essa experiência e no final haverão alguns spoilers para pontuar sobre temas que a produção quis trazer.

Programando a realidade

A trama apresentada pelo filme é na verdade bem simples. Durante a década de 1980 somos apresentados ao jovem programador Stefan (Fionn Whitehead), que ofereceu um projeto seu para uma grande empresa de videogames, a Tuckersoft, e agora está encarregado de transformar o livro interativo Bandersnatch em um jogo. Porém conforme o tempo passa a pressão para finalizar o material aumenta, assim o garoto vai cedendo ao estresse e à uma enxurrada de paranoias.

Foto: Divulgação

A interatividade vai sendo introduzida aos poucos durante a narrativa, começando com decisões simples, como qual cereal tomar no café da manhã ou qual música escutar, passando depois para detalhes mais determinantes da história. A Netflix comunicou que o filme tem cinco finais oficiais, porém há uma série de variações que não deixam a trama restrita apenas a estes. A cada dia que passa um novo usuário diz ter encontrado um caminho que ainda não havia sido explorado.

Um mundo de escolhas

Ao longo da narrativa ficamos em um vai e volta de decisões que nos permite explorar caminhos diversos para os personagens. Stefan tem como suas principais interações no filme Peter (Craig Parkinson), seu preocupado pai; Dra. Haynes (Alice Lowe), sua terapeuta; Colin (Will Poulter), outro programador da Tuckersoft e Mohan (Asim Chaudhry), o presidente da empresa.

Os personagens vão evoluindo conforme a trama se complica, alguns têm papéis mais definitivos no que diz respeito à própria evolução do protagonista, sendo pontos fundamentais em certas viradas no roteiro. O cenário oitentista está bem retratado e somos levados a mergulhar nas tecnologias da época. Além da presença constante de músicas, são mencionados artistas da década e Stefan está sempre interagindo com fitas e discos de vinil.

Foto: Divulgação

(ATENÇÃO! SPOILERS A PARTIR DAQUI)

Queda livre

O filme parece pôr em pauta duas questões principais: a fatal perda de sanidade do protagonista e a discussão do livre arbítrio. Conforme avançamos na história percebemos que um ponto em comum em todos os caminhos é o colapso mental que Stefan irá enfrentar pouco a pouco. Em uma das primeiras cenas do filme, na consulta com a terapeura, o espectador conhece a culpa que o garoto acumula por um acidente sofrido pela mãe e a raiva que sente pela participação do pai no evento.

Conhecendo essa instabilidade, vemos como ele fica suscetível à manipulações e possíveis teorias conspiratórias. Dependendo das escolhas do espectador ele acredita em diferentes forças que o estariam controlando, levando-o a atos extremos contra os outros e contra si mesmo.

No tocante ao livre-arbítrio, o filme consegue mergulhar fundo na metalinguagem. Os personagens constantemente tem conversas sobre controle e manipulação, eles se questionam sobre o fato de terem realmente poder sobre o que fazem, se aquilo é real. O que justamente bate de frente com o que o espectador está fazendo com todos eles.

Foto: Divulgação

Ao longo da história, Stefan parece estar muitas vezes falando com o próprio espectador, até chegando a esperar ordens dele e sentindo-se muito reprimido por esse tipo de poder. Já se observarmos a narrativa por meio de Colin, dependendo das cenas que acessamos, é possível ver como ele se mostra cada vez mais consciente da sua realidade e na verdade está confortável com esse fato, usufruindo e brincando com essa ciência por diversas vezes.

O que podemos perceber é que a melhor parte desse filme é a maneira que ele brinca com as suas próprias narrativas, deixando o expectador cada vez mais ousado em explorar os caminhos conforme passa a entender melhor sobre o que a história trata. A metalinguagem é um trunfo e tanto, tornando a sua conexão com os personagens, suas falas e atitudes muito maior. A Netflix nos brindou com mais uma excelente experiência de Black Mirror e esperamos que outros ainda melhores venham e nos garantam mais aventuras como essa.