A Forma da Água: um novo conto de fadas para amar

30/01/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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“A Forma da Água”, do diretor Guillermo del Toro, estreia nesta quinta-feira, 2, nos cinemas brasileiros e é o favorito do Oscar! A gente assistiu ao filme para conferir a história de amor entre uma zeladora muda e um ser fantástico. Segura o fôlego que nós vamos mergulhar!

P.S: Bem, a primeira coisa que nossos leitores devem saber é que no meio da projeção a nossa sessão apresentou problemas (e ficamos parados por pelo menos dez minutos)! Isso tira a concentração de qualquer um e é muito difícil imergir no dispositivo do cinema. Por outro lado, é bom, porque pudemos analisar de uma maneira mais técnica que sensorial.

Gosto clássico

Com 13 indicações, é claro que fotografia, trilha e montagem estão bonitinhas – é um longa que agradou à Academia, então o que se pode saber é que não teremos experimentações absurdas, mas também não haverá nada de muito grotesco (#George). O início lembra muito algo do Wes Anderson (“Moonrise Kingdom”, 2012), e a trilha remeteu ao fofo “O Fabuloso Destino de Amélie Poulin”, de Jean-Pierre Jeunet – mas as referências não param por aí (#George). A obra é uma homenagem à Hollywood, aos clássicos musicais, ao melodrama norte-americano.

A herança da cinematografia clássica pode ser vista no tema do “amor impossível”: a personagem principal, Elisa Esposito (Sally Hawkins), trabalha em uma agência governamental em Baltimore, sendo a responsável por limpar a sala onde uma criatura misteriosa é encarcerada. Elisa, apesar de jovial e aparentemente positiva, é muda, e é claro que sua incomunicabilidade é um fator estressante – além dos poucos habituados à língua de sinais que a personagem utiliza, ninguém mais a entende (#George). O ser aquático (creditado como “homem anfíbio”…) está em situação igual à da moça: comunica-se por ruídos e com ela aprende alguns poucos sinais. Nasce da condição de “cativos” a tensão romântica entre os dois.

Foto: Divulgação

Sonho em p&b

“A Forma da Água” pode pesar um pouco em sua ambientação: o governo estadunidense sendo paranoico, as figuras de autoridade demonstrando desprezo por seus inferiores, o “American Dream” –  o carro do ano, família feliz, esposa feliz que cuida dos filhos felizes na casinha feliz (é muita felicidade prum sonho só) – e o “self-made man” são amalgamados em um único ponto, o vilão Richard Strickland (Michael Shannon). Ele é odioso do início ao fim, é uma pessoa que nem lava as mãos depois de urinar, um assediador de todas as maneiras possíveis (#George).

Até mesmo a companheira de Elisa é caricatural. Zelda Fuller é uma mulher negra que “aguenta” um marido inútil e que faz algumas piadinhas ao longo de toda a narrativa e, apesar do brilhantismo e do carisma de Octavia Spencer (atriz que a interpreta), não convence.

Contudo, se a fábula tende ao excesso, o resultado é positivo. A impressão de realidade é deixada para trás e a obra se rende ao onírico, ao puramente belo – ainda que estranho. O grande ponto positivo do filme é encontrarmos na incomunicabilidade da senhorita Esposito um espelho de nossas próprias “mudezes” e de como esse mundo fantástico pode dar vazão à nossa necessidade de comunicar sobre algo.

O longa não é para crianças, mas retoma o lúdico, o “infantil”. Se vocês tem interesse em assistir a um trabalho cálido, por vezes até mesmo pueril, a trama do “homem anfíbio” é uma boa aposta. Ao sair do cinema pensei em um trecho do livro “Do Amor e Outros Demônios”, de Gabriel García Márquez. A citação resume com uma beleza agridoce o final da trama, ainda que, surpreendentemente, tenhamos a impressão de que a fábula tornou-se um conta de fadas:

“Ela lhe perguntou num daqueles dias se era verdade, como diziam as canções, que o amor tudo podia. – É verdade -, respondeu ele, – mas é melhor não acreditares.”

“Do Amor e Outros Demônios”, de Gabriel García Márquez

Foto: Divulgação