1917: Não há pausa na guerra

28/01/2020 - POSTADO POR and EM Filmes

É com certa frequência que as temporadas de premiações contam com um filme de guerra que retrate os horrores de um dos dois grandes conflitos mundiais. Não faz muito tempo que “Dunkirk” (2017), de Christopher Nolan, foi indicado a 8 prêmios Oscar, vencendo 3. Entretanto “1917” chega este ano com um ar de inovação no gênero.

A ousadia de acompanhar, sem cortes, o intervalo de algumas horas durante a 1ª Guerra Mundial pelo ponto de vista de dois jovens escalados para enviar uma mensagem urgente às tropas britânicas, rendeu ao diretor Sam Mendes (“Beleza Americana”, “Skyfall”) grande expectativa do público. Indicado a 10 categorias do Oscar, “1917” chega forte à premiação pelas camadas técnicas e pela abordagem singular da realidade no campo de batalha. Confira o que achamos do longa!

“Escolha um soldado”

6 de abril de 1917. Há três anos a 1ª Guerra Mundial já está em curso. No norte da França, o exército britânico faz frente aos alemães, até que estes misteriosamente retrocedem e abandonam as trincheiras, levando os britânicos a suspeitarem tratar-se de uma estratégia calculada.

É nesse contexto que o soldado Tom Blake (Dean-Charles Chapman) escolhe um companheiro, seu melhor amigo Will Schoefield (George MacKay), para acompanhá-lo numa missão de enviar uma mensagem urgente para outro batalhão. Só então eles passam a compreender o perigo envolvido na jornada e na grande responsabilidade confiada a eles. Caso a mensagem não chegue a tempo, 1.600 homens estarão entrando de cara em uma armadilha – incluindo o irmão de Blake.

Foto: Divulgação

Imersos no desespero

No trajeto dos soldados, o constante movimento da câmera nos insere em um ambiente onde a tensão também não para. Na guerra, a iminência da ação está sempre presente. Mendes transporta o espectador e o transforma quase num personagem, que vive o desespero sem ter tempo de absorvê-lo, pois na próxima esquina a dúvida pela sobrevivência aguarda.

O trabalho de câmera nunca teria chegado à tal nível não fosse pelo diretor de fotografia Roger Deakins, vencedor do Oscar por “Blade Runner 2049”. A sintonia entre a proposta ambiciosa de Mendes e a experiência de Deakins constrói enquadramentos que destacam de maneira ampla, mas nunca difusa, o ambiente devastado pelas batalhas, enquanto centenas de homens percorrem com urgência as trincheiras e os morros da França.

Diferente de outros aclamados longas do gênero, como “Dunkirk”, “1917” preza pela imersão quase em 1ª pessoa de quem assiste, além de expandir o macro da Grande Guerra através do microuniverso de dois dias no ponto de vista de uma dupla de soldados. Quase como um videogame, uma pequena escolha durante o trajeto compromete toda a operação. Porém, no caso da produção, não existe descanso para rever os planos – e nem uma segunda vida.

Foto: Divulgação

A inspiração de Sam Mendes

O diretor inglês alavancou sua promissora carreira, que começou em 1999 com “Beleza Americana”, através dos últimos dois longas de “007”, mostrando que administra com tranquilidade o gênero de ação. E em 2019, decidiu chegar a outro patamar com “1917”, rodado para simular um único plano-sequência, desafio já tomado por Alejandro Iñárritu em “Birdman” (2014), no qual Mendes tem grande admiração. O filme foi inspirado nos relatos em primeira mão do conflito contados pelo avô do diretor.

“Queria que nos sentíssemos conectados emocionalmente ao personagens principais. Queria que a câmera fosse esquecida e o foco fosse somente os dois homens”, declarou Sam Mendes em entrevista ao site Deadline. “Quando você faz um corte, seu cérebro se retira imediatamente daquela realidade. Se não há corte, o que acontece com sua mente e o modo como você recebe a informação? Isso é o que estamos realmente explorando”, disse o diretor.

Foto: Divulgação

Veredito

É difícil fazer um longa com uma visão técnica tão ousada e ambiciosa sem parecer pretensioso ou um mero exercício em técnica. Mas a competência e a versatilidade de Sam Mendes garantem que a produção mantenha um nível de conexão humana de forma que a decisão do plano sequência integral fortaleça a imersão, e não distraia.

Encontrando a poesia nos momentos mais obscuros e cruéis da guerra, “1917” também não foge dos horrores do conflito e leva o público mais uma vez a se perguntar o que levou o homem a chegar a um estado tão deplorável. Após o filme engatar no último ato e a gloriosa aflição se dissipar, a audiência se lembra de respirar e é também convidada a não esquecer das histórias, para que tamanha barbárie nunca mais aconteça.

Pontos fortes

  • Aspectos técnicos impecáveis, em sintonia com o fluxo contínuo da ação
  • Recorte fechado da guerra traz uma boa amostragem do conflito
  • Trabalho de som fantástico, com uma trilha emocionante de Thomas Newman

Pontos fracos

  • Grandes atores sub-aproveitados (Benedict Cumberbatch, Colin Firth…)

NOTA: 9,5